com poesia e música para o corpo, Siba lança “Coruja Muda”

Siba é a única pessoa que usa a palavra “regozijado” numa música e presta. foi o que pensei, quando o cantor divulgou, em fevereiro, Barato Pesado, single que faz parte do álbum Coruja Muda, lançado nas plataformas digitais hoje (6). nos dias 13 e 14 de setembro vão rolar shows de lançamento no Sesc Pompeia, em São Paulo.

siba-1cbad40ebfdca4d322ebc3db85130748-1200x600
créditos: José de Holanda

depois do frevo abolerado pesadíssimo de fevereiro, que tem o carnaval como lugar de catarse e arrebatamento; o poeta lançou no mês passado Tempo Bom Redondin, ótima pra gente pensar nossa relação com o tempo, assunto recorrente em sua obra. “Quem toca synth nela é Dustan Gallas, disse em entrevista ao site Trabalho Sujo.

Coruja Muda vem sendo elaborado desde a conclusão do De Baile Solto (2015), que buscava a retomada de uma rítmica, presente na Fuloresta (banda formada por músicos de Nazaré da Mata – PE, com quem lançou três álbuns e um EP e se tornou mestre de maracatu), através da instrumentação do Avante (2012).

quando entrevistei Siba em janeiro, aqui em São Paulo, para a Revista Continente, ele me disse que o novo trabalho não tinha um conceito:

“O disco não tem um tema claro. Não é conceitual, mas é costurado quase todo com imagens de animais, em que eles tomam a ação do que acontece. É sobre esse lugar indefinido onde o homem não sabe onde é homem ou animal e quando deixa de ser animal e passa a ser homem. Talvez seja um lugar onde eu quis chegar de diversas maneiras no texto do disco. No começo, não foi intencional, mas depois percebi e achei curiosa a repetição dessas imagens; acabou se tornando intencional e alimentando o processo.”

e é isso que a gente pode ver em Só É Gente Quem Se Diz. a primeira parte é uma embolada que faz comparações diretas entre seres humanos e animais. são versos imagéticos que desenham cenas, enquanto ouvimos a música. até a cigarra que foi sampleada em A Jarra e A Aranha, no De Baile Solto (2015), voltou toda cantora, sem precisar nem de caixa de som.

na segunda parte, tem uma aceleradinha, que quem conhece o interior do Nordeste em eleição, vai lembrar logo de um axé meio lambada que os políticos adoram como jingle de campanha, para tocar nos alto-falantes.

“e o tatu não é otário/quando escavaca no chão/que o ramo de escavação é negócio necessário/que o tatu é empresário que vence licitação”

(quando ouvi, lembrei da música de Tony Júnior, prefeito do filme “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. a música tá nas plataformas digitais.)

voltando.

siba3
créditos: José de Holanda

os tons árcades continuam em Daqui Pracolá, onde notamos o poder de observação de Siba à simplicidade e beleza da fauna e da flora.

(lembrei de “Urubu Tá Com Raiva do Boi”, de Baiano e Novos Caetanos.)

Carcará de Gaiola é sobre o pássaro enjaulado que deveria estar solto. seria uma referência ao ex-presidente Lula? o baque solto está presente, com a presença de Galego do Trombone, Roberto Manoel e Maestro Minuto, da Fuloresta.

em Tamanqueiro, à primeira vista, é uma simples encomenda de um tamanco, mas se a gente ouvir com um tiquinho mais de atenção, conseguimos perceber que há uma metonímia de um tamanco que sintetiza um modo de andar no mundo, sem tanto comodismo, se ajustando ao que surge, às vezes, acompanhado de uma chuva fina que molha, à noite.

“eu quero um par de tamanco desigual/daquele jeito legal/que nem dá pra separar/eu quero um par preu caminhar no sereno/um grande e outro pequeno/pra pegada variar”

participam dessa faixa, para fabricação do tamanco, Arto Lindsay, Edgar, Rafael dos Santos e Dustan Gallas.

O Que Não Há: Siba contou ao site Trabalho Sujo que tentou fazer um verso não-metrificado, marca comum em sua poesia, mas que foi não foi muito longe. completou: “tem muito mais influência das longas canções de Franco com a banda OK Jazz nos anos 70”. é uma música sobre a violência.

seria uma violência doméstica de um homenzinho preguiçoso, que pede à mulher para servir café, enquanto vê o futebol e, ao se olhar no espelho, percebe sangue? o personagem me incomodou nos primeiros versos. participam dessa faixa Renata Rosa, Alessandra Leão e Mestre Anderson Miguel.

quando ouvi Azda (Vem Batendo Asa), fiquei tentando entender o que danado era Azda. olhei no francês, no árabe (porque lembrei de Qasida, do Avante), e descobri que era um jingle para Volkswagen. achei estranho, mas depois vi que era isso mesmo.

para o Trabalho Sujo, Siba disse que tentou, na cara de pau, fazer uma versão de um clássico da música do Congo (que ele tanto gosta e que o influencia). nela, a casa é um lugar de retorno, onde se pode ser do que jeito que é. lembrei da Qasida que também fala sobre percorrer o mundo, mas ter um canto pra voltar, que possibilite alguma unidade do ser.

há ainda duas músicas do Toda Vez que eu Dou Um Passo O Mundo Sai do Lugar (2007), de Siba e a Fuloresta, que ganharam uma versão soft, atualmente, apresentada nos shows: Meu Time, que mostra todo bom humor do poeta, e Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai do Lugar, uma das mais famosas.

chegando ao final, a minha preferida: Coruja Muda, título do disco. traz, de algum modo, a relação que se tem com tempo, com a imagem que aprisiona um instante, ao vivido fora do enquadramento, ao que se observa e se analisa, com sabedoria, depois do feito e, ainda, ri do que passou.

“pois se eu tivesse imagem controlada/só uma foto e mais nada de mim eu permitiria/nela estaria meu rosto de meia-idade/olhando muito à vontade/como quem está meditando/só quem demorasse olhando veria coruja muda/que de ri de mim quando estuda tudo que eu disse cantando”

que a poesia do Coruja Muda; leve, sabida e observando tudo; com sua música para o corpo; adentre vários espaços e reverbere no tempo que é e no que ainda está por vir.

ficha técnica:

produção musical: João Noronha e Siba

edição: Éric Yoshino mixagem: João Noronha e Siba

masterização: Carlinhos Freitas

produção executiva: Fina Produção

foto da capa: José De Holanda

capa original: Diego Mallo e Joana Veloso

direção de arte: Marcelo Subrín e Siba

todas as músicas por Siba, exceto “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo / O Mundo Sai do Lugar (Slight Return)” por Siba e Mestre Nico e “AZDA (Vem Batendo Asa)” por Franco e Siba (composição original: Franco)

gravado entre 2018 e 2019 nos estúdios YB por Carlos “Cacá” Lima, Frederico Pacheco e Gui Amabis e nos estúdios EAEO por João Noronha e Felipe Crocco

participações:

Chico César: voz [faixa 1]

Arto Lindsay: guitarra [faixa 3]

Novíssimo Edgar: ultraste [faixa 3]

Alessandra Leão: voz [faixa 5]

Mestre Anderson Miguel: voz [faixa 5]

Renata Rosa: voz [faixa 5]

Mestre Nico: voz [faixa 11]

músicos: Siba: voz e guitarra em todas as faixas, rabeca [faixas 1 e 3]

Mestre Nico: voz em todas as faixas, exceto na faixa 4, percussão [faixas 1, 4, 5, 7, 8 e 11], trombone [faixas 2, 4, 5, 6, 8, 9 e 11]

Lello Bezerra: guitarra em todas as faixas, synth [faixa 4]

Rafael Dos Santos: bateria em todas as faixas, trompete e voz [faixa 3]

Dustan Gallas: teclados/synth [faixas 1, 3, 5, 6 e 8]

Lulinha Alencar: acordeon [faixas 1, 2, 3, 5, 6 e 7]

João Noronha: guitarra [faixa 3]

Gui Amabis: samples [faixa 4]

Ricardo Carneiro: violão [faixa 5]

Leandro Gervázio: tuba [faixas 4 e 5] e voz [faixa 4]

Roberto Manoel: trompete [faixas 4 e 5]

João Minuto: sax tenor [faixas 4 e 5]

Galego Do Trombone: trombone [faixas 4 e 5]

© 2019 EAEO Records / YB Music

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s